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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Poesias Súbitas #2 - Soneto XXXV ( A Rua dos Cataventos) - Mario Quintana


Adoro Mario Quintana, admiro muito a forma "simples" como ele trata temas densos como morte, por exemplo. Este soneto retirado do livro "A Rua dos Cataventos" de 1940 fala dela:

XXXV

Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixai-me em paz na minha quieta rua...
Nada mais quero com nenhum de vós!

Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão...
Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Expressão!...

Eu levarei comigo as madrugadas,
Pôr de sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas...

E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios de vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto...

urdir: tecer

Não sou fã de estruturas fixas na poesia mas já é o segundo soneto que posto, vai entender...

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quarta-feira, 14 de abril de 2010

Poesias Súbitas #1 - O inimigo - Charles Baudelaire


Mais um tópico. Estava tão mergulhado no mundo da música que não andava fazendo muita coisa além, mas pretendo mudar isso... Ando assistindo mais filmes do que o meu normal e estou voltando a ler como antes ( a faculdade que se f***).

Não pretendo comentar filmes (já temos quem faça), e nem comentarei as poesias e coisas afins, mas as postarei para a devida apreciação.

Estou lendo "As Flores do Mal" (Les Fleurs du Mal) do frânces Charles Baudelaire. Um livro impactante até hoje, imagina na época (século XIX)... temas como tempo, morte, amor, tédio foram tratados com tinta de ódio. Gostei bastante desse soneto aqui:

O inimigo

Foi minha juventude não mais que um vendaval
Em que raro brilharam os sóis como espelhos;
Nela a chuva e o trovão fizeram estrago tal
Que sobram no jardim poucos frutos vermelhos.

Eis que chego ao outono do pensamento,
E usarei pá e ancinho por manhãs obscuras
Para juntar de novo o solo lamacento
Com crateras enormes como sepulturas.

Quem sabe se a flor nova que o meu ser anseia
Achará neste chão lavado com a areia
O místico alimento que lhe dá vigor?

Devora o tempo a Vida, ó suprema agonia!
Se rói o coração o inimigo traidor,
Cresce por se nutrir desta nossa anemia!

(tradução: Pietro Nassetti)

L'ENNEMI

Ma jeunesse ne fut qu'un ténébreux orage,
Traversé ça et là par de brillants soleils;
Le tonnerre et la pluie ont fait un tel ravage
Qu'il reste en mon jardin bien peu de fruits vermeils.

Voilà que j'ai touché l'automne des idées,
Et qu'il faut employer la pelle et les râteaux
Pour rassembler à neuf les terres inondées,
Où l'eau creuse des trous grands comme des tombeaux.

Et qui sait si les fleurs nouvelles que je rêve
Trouveront dans ce sol lavé comme une grève
Le mystique aliment qui ferait leur vigueur?

--O douleur! ô douleur! Le Temps mange la vie,
Et l'obscur Ennemi qui nous ronge le coeur
Du sang que nous perdons croît et se fortifie!

Gostei dessa tradução, encontrei outras na internet mas percebi que não acharam boas soluções para a tradução não mantendo nem mesmo certas rimas. Futuramente pretendo aprender um pouquinho de francês, gosto muito da sua sonoridade...

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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Frase da Semana #02

Essa é de um dos poetas mais geniais e que admiro muito, o gaúcho Mário Quintana.

Retirada do livro "Poemas Para a Infância":


Fatos Consumados

...e se eles te apertarem muito sobre o que quiseste dizer com um poe-
ma, pergunta-lhes apenas o que Deus quis dizer com este nosso mundo...

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quinta-feira, 1 de abril de 2010

Versos Súbitos #1 - Mar de Insignificâncias

http://farm3.static.flickr.com/2649/4063668823_5d3290114b.jpg
Tormenta


Mar de Insignificâncias


Os raios amarelo-estrondo

dão o toque de fúria

à Tormenta;

são riscos dum brilho sombrio

que dilaceram qualquer destemor

à deriva entre as garras das ondas.


E, em alguma esquina

daquela Lua,

a poesia, inesperada,

gargalha insana e afogada

num mar de insignificâncias,

crateras e palavras.




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terça-feira, 16 de março de 2010

Poema MOVIMENTO DOS VENTOS


Neste poema descrevo a angustia da realidade do cotidiano de quem consegue ver além de seus espelhos limpos e iluminados. Escolhi para colocar de fundo a música "Brothers in Arms" do Dire Straits. Acho que o compasso dessa música leva o ritmo que quero na leitura. O choro da guitarra, a harmonia do teclado, o leve pulsar da bateria e a voz solta de Knopler sentimentalizam perfeitamente tudo isso que sinto. A letra dela também descreve uma realidade triste, mas mantém a esperança que devemos ter a cada batalha.



Abaixo o trecho que mais gosto da música. Em seguida meu poema.

"Now the sun's gone to hell
And the moon's riding high
Let me bid you farewell
Every man has to die
But it's written in the starlight
And every line on your palm
We're fools to make war
On our brothers in arms."


MOVIMENTO DOS VENTOS

Eu caminho pela rua enquanto chove
e vejo os becos escuros.
Pela janela um quarto de criança,
mas as vestimentas não servem.
Onde estão os brinquedos espalhados?
Um tiro cruzou o ar e meu peito disparou.
Um mendigo dorme em minha rua,
mas ninguém consegue vê-lo.
Os carros não esperam por ninguém e seguem viagem.
Perdidos na vida que não entendem, preferem sonhar acordado.
Os meus passos saem de órbita ou será o noticiário?
E os filhos dessa terra onde estão?
De que adianta subir até o topo se a fumaça não permite mais admirar o horizonte?!
Os olhos que eram azuis agora escurecem meu olhar.
Será ainda possível compreender discursos fora do palco armado na cidade?
Minha cabeça baixa é para saber onde pisar, talvez por um pouco de aflição.
Mas os ventos sempre vão soprar em novas direções...

(Bruno Tadeu Lopes;16/03/2010.)




Observação: O desenho que posto é uma homenagem de Marco Oliveira para o cartunista Glauco e seu filho Raoni, assassinados a tiros na madrugada de sexta-feira(16/03/10), entre tantas outras postadas por vários cartunistas no blog Universo HQ

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quinta-feira, 11 de março de 2010

FACE DE UMA VERDADE


Poesia de Bruno Tadeu Lopes
Datada de 1° de abril de 2009.

"...Nada sei do que vem além do passado
Nada sei do que é capaz o amor..."





Beijo a cada face amarga que a verdade traga.
Trago a fumaça exonerada da pessoa amada.
Beijo, trago, amargo em verdades exoneradas.
Armo o doce veneno na boca engatilhada
Para celebrar o fim de uma lenda apaixonada.
Nada sei do que vem além do passado,
Nada sei do que é capaz o amor
Nessa estrada onde a única pessoa que pode saber da verdade está derrotada,
Sonhando, ao fogo que ainda queima em seu crepúsculo de dor.
No deserto de meus olhos secos afogo a solidão do futuro que não se traçou

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sábado, 27 de fevereiro de 2010

HORA DE ALMOÇO


Poesia de Bruno Tadeu Lopes
Datada de 13 de agosto de 2009.

"Ao vigor destas flores
que germinam no jardim de asfalto quente.
Neste frio que sinto antes de chegar ao sol..."





Ao vigor destas flores que germinam no jardim de asfalto quente.
Neste frio que sinto antes de chegar ao sol.
Naquelas crianças que só brincam do outro lado da calçada
Ao som dos automóveis, acelerados motores.
Acalanto!
Aos pássaros que cantam nestes galhos secos,
Onde ficam as lembranças de um lugar que já frutificou.
Deixo aqui minha esperança fria
Ao sair e entrar
De um descanso do almoço quente.

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domingo, 14 de fevereiro de 2010

Confete no céu de fevereiro (Bruno Tadeu Lopes)


Iluminando a fantasia
O dia se inicia
Na avenida fervente
O bloco anuncia
A vida é logo à frente
Havia nisso toda folia
O sorriso abre enfeite
Batucando sua alegria
Colorido, colorido
Jogue ao ar a luz do dia
Celebrando até o fim
Quando a Quaresma anuncia
Suas cinzas convertidas
Na mudança de vida
Caindo do céu
confetes
Nas lembranças de nossos dias

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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

CENTRAL


(Foto retirada de www.cbtu.gov.br/.../tue_relogiocentral_jpg.htm)

Poesia inspirada nos meus desembarques diários na Central do Brasil.

Central

Os pés na plataforma,
descarr-ilhados
de consciência,
apressam-se como máquinas;

confundem-se em caos
atrelados a destinos
artificiais
como trens nos trilhos.

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domingo, 18 de outubro de 2009

GRITO


O giro mundo.

Gira, é carrossel.

Gira, dia, a vida.

Vida que adia dias.

Vadia a pé de carnaval

O que resta do calçado

Que cansa o mancebo

A dançar, envolto, fosco véu.

Exausta a esperança, arranca a lança,

Acerta as lembranças de cegas horas;

Em horizontes donde corro,

E canto, e gira, espiral,

Livre meu poder!

Não pára num palco,

Num ato de parto, de dores

Da prenha luz que reproduz

Induzindo as sendas em rimas finas

Ou que desafina nas verdades que são minhas

E só minhas eu sei dizer.

Grita, grita!...

Grita porque perde-se o resto

Que se decompõe da questão.

Eu não quero ter, então gira,

Que o resto é feto.

E o sol continua parado,

Ardendo sem prazer.

Gira lua e brilha a custa do astro rei,

Da noite que é dia e goza da vida

A cada segundo que gira

O jogo que é ser.

(Bruno Tadeu Lopes – 23.janeiro.2006.)

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